25 de julho de 2011

Leitor Entrevista/ Rede Bom Dia – na íntegra


O projeto fotográfico “Voz Travestida” foi criado pelos fotógrafos Francine Esqueda e Marcos Leandro em comemoração a Semana da Diversidade de Bauru. A exposição acontecerá na Galeria W. Messenberg, Teatro Municipal Bauru, no período de 22 de agosto a 4 de setembro de 2011. A produção pretende discutir o preconceito em torno do gênero travesti apresentan­do-os através de retratos cotidianos e divertidos. A proposta é celebrar a igualdade colocando todos no mesmo espaço.

Leitor Francine Esqueda, antropóloga e fotógrafa, 31 anos
Entrevista RUBYA BITTENCOURT: Paulo Balderramas, ator, 40 anos

1. Como é ser uma Drag Queen numa cidade do interior? Você já sofreu algum tipo de preconceito?
Eu fui a primeira drag Queen de Bauru. A primeira a pisar no Automóvel Club e a primeira a ser hostess da Cevejaria dos Monges. Minha carreira se solidificou no interior. Aqui em Bauru eu rompi com o preconceito e inaugurei a primeira casa noturna exclusiva para o público gay, trazendo as drags da época que hoje são as estrelas da noite. A imprensa, quando queria abordar o tema gay, me procurava sem pestanejar, porque nunca tive medo, vergonha ou receio de falar abertamente sobre o que eu fazia e que ramo eu trabalhava porque sempre fiz tudo isso com muita dignidade e amor, e por questões comportamentais nunca fui vítima de preconceito. Depois fiquei em Campinas, que também é interior, onde fui diretor artístico da The Club, até então, a maior boate da américa latina. Meu arrimo está no interior. São Paulo eu me dava ao luxo de me apresentar em ocasiões especiais.

2. O que significa pra você participar de um projeto como esse? Você acha que uma exposição como essa pode fazer com que haja reflexões em torno do preconceito?
Participar desse projeto significa resgatar a história gay de Bauru. Ser reconhecido pelo trajeto que criei. Eu tirei o público gay dos guetos escuros e escondidos da cidade e coloquei o entretenimento em patamares idênticos à de uma casa exlusivamente "hetero". Eu abri portas. Eu coloquei peruca na cabeça e dei cara a tapa numa sociedade que via as drags queens como travestis coloridas. A mentalidade de hoje está diferente, mas o preconceito sempre vai existir porque a imagem da drag queen está em extinção pela própria banalização da função. Eu nunca quis ser mulher. Eu sou ator que me caracterizo de mulher para levar diversão ao público.
A ideia da exposição é válida como forma de esclarecimento para a abordagem que cada um tem no desempenho na sociedade. Todos são diferentes. Não somos clonados e a partir daí se solidifica a interação humana.  

3. O que vc acha da abordagem das telenovelas em relação a homoxessualidade?
Acho abordagens apelativas, onde as emissoras pensam somente no ibope que a cena vai dar no dia. Tiveram que explodir um shopping para matar o casal lésbico de Torre de Babel. Aguinaldo Silva é contra o beijo gay na telenovela brasileira, mas abordam temas tão relevantes e ninguém se sente ofendido. A demostração do amor entre pessoas do mesmo sexo ficou comparada a promiscuidade que a sociedade nos enxerga. Mas eu encerro essa entrevista com um pensamento de Lima Barreto: 

"Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino para a própria felicidade da espécie humana."

Jornal Bom Dia – Bauru. 24 de julho de 2011.

1 comentários:

Paula Fernandes disse...

que saudades de passear pelos meus antigos amigos blogueiros..rsrsrs... beijos querida !